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A Roda
Você nasce fora da roda, totalmente livre para ir aonde quiser. Seus pais tentam te conduzir ou apenas ir apontando o melhor caminho conforme você avança. Você vai passando pelos anos da escola, ensino fundamental e médio, e chega. Quando o ensino médio acaba a sociedade te apresenta a primeira roda. Sabe aquela roda que tem em gaiolas de hamsters e roedores em geral?
A roda é bem grande e bonita e deve ser conquistada, várias pessoas vão competir pela mesma roda e apenas uma delas vai conseguir. Te dizem que essa roda vai te trazer muitas oportunidades e a certeza de uma vida de sucesso. Essa roda é a faculdade.
Dependendo da sua família e classe social, o ingresso nessa roda é obrigatório. Seus pais vão te ajudar pagando o melhor curso pré-vestibular possível, te dando livros e apostilas. Até te deixarão sossegado enquanto estiver estudando e não vão te obrigar a fazer coisas chatas como arrumar a cama ou lavar a louça no final de semana.
Infelizmente a escolha da roda não é sua. A roda é apresentada pela sua família e pela sociedade. Você vai ter apenas três opções, engenharia, medicina ou direito. Todas as outras profissões estão cheias de maconheiros, vagabundos e, principalmente, pobres. Os outros cursos serão indignos de você e devem ser deixados para as pessoas menos nobres. Se você gosta de exatas, engenharia, se gosta de biologia, medicina, se gosta da área de humanas, direito.
Mas ainda existe uma útima opção reservada apenas aos filhos que não querem fazer nada ou não conseguiram se decidir entre as três anteriores, administração. O único problema é que a maioria das empresas vai contratar um engenheiro para ocupar a sua vaga de administrador.
Então você escolheu a roda, lutou por ela e conseguiu entrar na faculdade. Você vai passar de 4 a 6 anos nessa roda cheia de provas e festas. Quando a faculdade acabar e você se formar você terá saído dessa roda. Você está livre de novo e pode ir para onde quiser. Mas as pressões familiares e sociais para você entrar em outra roda não cessam.
É nesse momento da vida que você toma umas das decisões mais importantes. Escolher a faculdade é uma decisão muito menor do que essa. Claro, nem decidir a faculdade nem essa decisão são irreversíveis. Você pode entrar em outra faculdade e fazer outro curso que te agrade mais que o primeiro. E você também pode arranjar um emprego ou não.
O emprego é a escolha da quase totalidade das pessoas do mundo. Sim, do mundo. São poucas as pessoas com coragem suficiente para escolher outro caminho. Aliás, escolher um caminho. Pois ter emprego é entrar em outra roda. Essa roda é mais apertada, sem festas e pessoas interessantes. Ao contrário da roda universitária, essa não tem limite de tempo. Você pode passar o resto da vida nessa roda.
Na roda não há como avançar, você precisa ir trocando de roda, e trocando de emprego, para ir melhorando os seus benefícios. A cada troca a roda se torna mais apertada, fria e rápida. Você tem que correr cada vez mais rápido para se manter na roda e manter o salário. Se você diminuir o passo, vai acabar caindo da roda e vai ter que voltar para uma roda mais lenta. Não preciso dizer as consequências sociais de ser derrubado da roda.
Se você entra na roda, você corre sem sair do lugar e perde as maravilhas da estrada que passa ao lado da sua roda. Sempre que você sai de uma roda, você cai nessa estrada. Ela é cheia de curvas e buracos, subidas e descidas. Ma na estrada você é livre para percorrê-la na velocidade que quiser e se quiser. Você pode até comprar um veículo para ir mais rápido ou mais confortável pela estrada.
Na roda tudo é calmo e estático. Não há emoções nem aventuras. Correr na roda é sempre igual, o problema é seguir o passo que o patrão te impõe. Na estrada você pode correr, caminhar ou sentar um pouco para apreciar a paisagem. Outras pessoas podem te acompanhar na estrada, na roda não. Na roda você corre sozinho e sem ajuda.
Às margens da estrada existem florestas, praias, montanhas, desertos e geleiras. Existem até outras estradas paralelas à sua e você pode mudar de estrada e passear um pouco com outras pessoas. Várias pessoas podem se juntar e formar uma estrada bem larga e cheia de novidades e coisas interessantes.
Se você tiver um veículo, pode ir mais rápido e mais confortável. Ir de moto e aproveitar a liberdade ou um carro com ar condicionado e câmbio automático. Enfim, na estrada a escolha é sua. Na roda a escolha é do patrão. Se a roda fosse tão boa assim, seu patrão, o dono da empresa, estaria nela. Enquanto você corre na roda, ele comprou um jipão com todo o conforto que você pode imaginar e participa de um rally. Sabe como ele conseguiu tudo aquilo? Montando rodas para os outros correrem.
Você adotaria?
Sabendo que a grande maioria das crianças disponíveis para adoção é negra e maior de 5 anos e que você não poderá gerar os próprios filhos, adotaria, sem nenhuma restrição? Se você parar para pensar, a única certeza que você tem de um filho biológico é que ele vai ser parecido com você. Se você é branco, a criança negra será diferente. Mas ela ainda pode ter problemas de saúde, assim como o filho biológico.
Sobram pais querendo adotar meninas brancas e sobram meninos negros nos abrigos. Pais negros que querem adotar preferem que a criança seja apenas parda! Temendo o preconceito, algo que depende mais de quem ouve do que de quem fala. A maioria dos pais na fila para a adoção não podem gerar filhos, então querem bebês para viver a maternidade/paternidade em todos os estágios da vida da criança. Faltam bebês brancos do sexo feminino, os preferidos.
Outro ponto importante, poucos pais aceitariam adotar uma criança com algum problema de saúde. A maioria quer crianças perfeitas. Ora, se você está gerando um filho ele pode nascer com defeitos. Não tem como escolher, vai ter que cuidar! Então por que escolhem na hora de adotar, se querem ser pais de toda forma possível. Cuidar de uma criança que tenha algum defeito/doença é uma experiência dificil, mas totalmente gratificante.
A maioria dos pais querem adotar uma criança, mas muitas delas têm irmãos e o governo não os separará apenas por um capricho dos adotantes. Por que só um por vez, já que os filhos biológicos ainda podem nascer gêmeos? Dois bebês para cuidar. Mais uma vantagem para adotar irmãos: a adaptação das crianças no novo lar é facilitada pelo fato das crianças se conhecerem e se sentirem senguras juntas. Diminui a taxa de rejeição e os problemas posteriores.
Eu ainda não sou pai. Hoje completo dois meses de casado. Mas tenho duas irmãs adotivas que são completamente diferentes de mim. Cada uma com seus problemas, angústias, alegrias, manias e frescuras. Como se tivessem sido paridas pela minha mãe. Se quiser adotar, abra o coração e pare com essas frescuras de idade, cor e saúde. O que tiver que ser, será!
PS: eu sou louco por criança e quero muito ser pai e, se Deus permitir terei os meus e adotarei os dos outros. Negro, branco, amarelo, saudável, doente, menino ou menina. Deus que escolha por mim!




